sábado, 17 de setembro de 2011

Bloqueio Criativo

Pois é. Escrever sobre um bloqueio criativo é algo cômico. Escrever sobre a falta de coisas para escrever. Não que falte coisas, elas estão aí aos montes, observe o mundo pela janela do seu quarto e verá: a poesia está ali. Só falta paciência e os filtros certos para apurá-la, deliciá-la, como uma fruta que acabara de cair da árvore. Simplesmente pura. Como diria Drummond, se não consegue achar as palavras certas, tenha paciência para que ela se revele do Mundo da Poesia. Amadureça o poema, encontre as palavras que descrevem perfeitamente as sensações, rejeite os opostos do sabor e fique apenas com ela em sua mente. Se relacione com a situação, sejam um só. O ar está rarefeito? Desça um pouco então, respire fundo e volte ao instante em que o ato terminou. Arranje uma desculpa esfarrapada ou até mesmo elaborada, e tente terminá-la.  Porque a poesia só tem fim mesmo quando há a morte.

Na Clausura do Elevador

Nesse elevador barulhento
Nesse tenso clima de falta de assunto e ânimo
Alguns pensam
Que seria melhor pagar pra usar elevador
Só pra não ter que se deparar com alguém
Alguém que não é ninguém pra ela mesmo, se é que me entende.

Apesar de tudo, ouvi um magistral:
- tá quente hoje, né?

Bom, claro que a parte do magistral foi pura ironia, porém, a cocota era um pitéu, não sabia se era algo mais sério ou um simples filler durante a interminável viagem de 8 andares.

Respondi magistralmente [sem ironias agora]:
- Nossa, tá mesmo, nesse elevador então, o calor fica mais e mais insuportável, não?

Boa resposta.
Não é nenhum pouco indecente, mas se houvesse alguma segunda intenção, ela demonstraria agora mesmo. Magistral.

- É...

É, ela não demonstrou nada.

Nesse momento, ela começou a falar algumas coisas típicas de mulher, sabe? Falando que foi no fazer o cabelo e aquele calor todo ia estragar o cabelo dela, bla bla bla, essas coisas que realmente não nos interessam. Apesar de tudo, lembrei de algo importante nesse momento, tinha esquecido meus óculos em casa e poderia estar numa cilada agora, quem sabe ela não seria alguma senhora old-school com um corpinho de menina de 20 anos?

-... Quase me atropelou, imagina?
- Hm? N-nossa, que perigo!

Odeio isso em mim às vezes, não fazer idéia do que os outros estão falando comigo e ter que responder algo. Odeio pessoas indecisas que precisam de respostas dos outros pra prosseguirem seus dicursos.

Decidi apertar o botão do meu apartamento de novo, afinal, tinha me esquecido dos óculos, como já disse.

Quando chegamos ao térreo, ninguém saiu da cabine e ninguém entrou. Estranhei.

- A senhorita não desce aqui?
- Eu vou subir de novo, esqueci uma coisinha na minha casa...
- Ah sim...

Maldita.
Isso é um baita terrorismo pra mente de um homem. Pensar em atacar algo que não sabe o que é. Um homem sem visão é o mesmo que... sei lá, qualquer clichê que precise de outro clichê pra ser mais clichê ainda.

3º andar já e o silêncio toma o lugar de volta pra si.

- Você é novo no prédio?

Droga, mais uma conversa com essa mulher misteriosa aos meus olhos.

- Sim... moro aqui há umas 2 semanas só, vim estudar.
- Ah tá.
- Você mora em qual andar? [papo de elevador]
- No 7º.
- Ah, eu moro no 8º... você deve ser minha vizinha de baixo.
- Ah, então é você que fica colocando aquela música alta e às vezes uns barulhos meios estranhos, tipo mulheres gemendo altíssimo?
- Ahm... não, nem gosto de música direito... você mora em qual apartamento?
- 702.
- Ah, eu sou do 803!

Droga, essa foi por muito pouco, não sabia que dava pra ouvir no andar de baixo os vídeos da internet.

- Pronto, meu andar chegou. Beijos.
- Beijo.

E agora? Fiquei uns 3 minutos com uma mulher bem composta, de voz suave, porém não sei quem é e por pouco ela não descobre que eu sou o rockeiro desse prédio maldito.
Quer saber? Vou pegar meus óculos logo em casa pra ir pra faculdade, tô atrasado já.

Quando acabo de entrar no elevador, ele pára no sétimo andar e quem sai de lá?
Uma mulher bem brotinho, uma gatinha.

Fico feliz por saber que aquela mulher com quem tinha conversado tinha seus 19 anos e, olha, que mulher!

Equipado com minhas lentes, agora posso ter uma conversa normal:

- Ah, então quer dizer que é a terceira vez que a gente se vê hoje?
- É?
- Não? A gente desceu e subiu juntos agorinha, não lembra?
- Não...?
- Oh, me desculpe então, devo estar confundindo...
- Ok.

O silêncio dominou o lugar de novo. E me massacrou, com certeza. Eu realmente pareci um doido conversando com aquela menina, mas eu tinha certeza que tinha falado com ela. Miopia é um grande problema às vezes.

Lá no térreo, percebo que a menina acena para alguém, parecia ser sua mãe, eu acho, aquelas senhoras enxutas que querem parecer iguais suas filhas, sabe? Ela acenou pra mim.

Meu Deus, tem uma velha me dando mole e a filha dela, que é da minha idade, me acha um louco.
E ainda é provável que a mãe seja casada, pois há um anel em sua mão.

- Quer uma carona? - disse a mãe
- Não, não, obrigado, vou de ônibus.
- Que isso, venha conosco, aproveite que há uma vaga.

Olha, normalmente eu não aceitaria, mas eu realmente tava muito atrasado e tinha que chegar o mais cedo possível na faculdade.
Tinha que apresentar um trabalho e tinha que estudá-lo melhor.
Aceitei o convite.

No carro, a mãe dirigia, um homem por volta de 40 anos estava no banco do carona. No banco de trás a filha linda, um bebê no meio e eu na outra ponta. Decidi tirar o papel da mochila com o material do trabalho e comecei a ler.

- Trabalho da escola? – disse a mãe [perceba que eu não sei o nome de ninguém]
- É... da faculdade.
- Ah sim... a Ana tinha um trabalho pra hoje também... né, Ana?
- ...É!... – seu olhar me aniquilou, de verdade, senti um grande ar de morte em seu olhar pra mim.
- Você estudou o seu trabalho, filha?
- Não...
- Então trate de estudar já, faça que nem ele.. o...
- Bruno.
- Isso, faça que nem ele.

Do nada, uma voz grossa ecoa na estrutura metálica e acolchoada do carrão.
- Quem é ele? É seu namorado, Ana?
- Não.

Foi um ‘não’ bem seco, sabe? Do tipo, ‘nunca beijaria esse cara na minha vida’.
Pelo menos eu tava indo de graça pra faculdade, então não liguei.

- Na verdade, eu sou um morador recém-chegado no prédio.
- Ah sim.

Oh, juro que a partir daí não teve nada de mais, na verdade continuei lendo meu trabalho e simplesmente ignorei os olhares da Ana, que começou a estudar o seu trabalho durante a viagem.

Levaram-me até a porta da faculdade, nesse quesito não tive o que reclamar, melhor impossível. Me despedi normalmente, agradeci pelo favor e fui para minha aula.
Ali começava meu dia de verdade.